O Olhar Psicomotor como norteador na Avaliação Psicopedagógica
Ao abordarmos o tema Avaliação Psicopedagógica, logo nos vem em mente a verificação do nível de desenvolvimento cognitivo e afetivo em que o sujeito se encontra. A proposta deste artigo é apresentar meios alternativos de olhar o sujeito. Estes meios podem ser adaptados, como também justapostos aos já conhecidamente praticados. Estimular a repensar e construir atuações psicomotoras de avaliação na atuação pedagógica.
Quando pensamos em “Olhar Psicomotor”, pensamos em relações de afeto que impulsionam o sujeito a movimentar-se, e assim, relacionar-se com o mundo (pessoas; acontecimentos e objetos), utilizando como motor de arranque os “motivos”, “comandos” e “corpo” (emoção, cognição e movimento).

Quem nunca viu um filme do antigo Cinema Mudo? Carlitos na pele de Charles Chaplin! Não dá para imaginar que alguém não tenha entendido ou emocionado-se. Apenas gestos e emoção puderam encantar milhares de pessoas ao longo de todos estes anos.
O olhar psicomotor vem propor uma leitura muito semelhante à que usávamos ao assistir tais filmes. Compreendendo o sujeito, analisando sua atuação corporal no mundo externo, bem como os gestos como expressão de seu mundo interior (pensamento e emoções). Portanto, a análise psicomotora considera o movimento de nosso corpo, a origem de nossas aquisições afetivas e cognitivas. À medida em que vão se organizando, culminam na funcionalidade particular do sujeito.
Muitas foram as contribuições de grandes estudiosos e teóricos sobre o desenvolvimento humano. Portanto cabe citar algumas delas para que possamos compreender melhor a proposta de se adotar a análise psicomotora como forma de avaliação psicoeducacional.
Piaget descreveu o processo de estruturação cognitiva, partindo de existência de aparatos biológicos inatos, os quais a partir da interação da criança com o meio, iria agregando condutas cada vez mais elaboradas, passando do plano sensório-motor (ações diretas) para o plano das representações (pensamento simbólico), chegando em sua forma final, o pensamento formal (abstrações). Este processo se daria por meio do processo de assimilação/acomodação/adaptação, alcançando o estado de equilibração. Em todos os períodos de desenvolvimento descritos por Piaget, a ação motora se faz presente. Gradativamente vai sendo substituída por formas mais elaboradas de atuação, porém não se extingue.
Do nascimento até a aquisição da função semiótica (capacidade de representar mentalmente), observou condutas que surgiram a partir da atuação da criança sobre o meio. A este comportamento exploratório, deu o nome de Sensório-Motor. Suas manifestações corporais funcionando como mola propulsora na aquisição de mecanismos mais elaborados. Desta forma, um processo de vai-e-vem se realiza por meio da assimilação/adaptação aos diversos estímulos à que estamos submetidos. Estas são invariantes funcionais que irão atuar por toda a vida do sujeito, sempre que se vir em situação problema/nova.
No Período Sensório-Motor, como o nome já denuncia, a ação direta (motora e perceptiva) sobre o meio, possibilita que a criança vai possibilitar que a criança forme conceitos básicos indispensáveis à sua estruturação psicológica. Coordenações primárias; solidificação de esquemas de ação por meio de repetições; coordenação de esquemas para atingir um objetivo; imitação de modelo; modificação de esquemas adquiridos; noção de objeto; causalidade e por fim o pensamento simbólico com o que chamou de imitação diferida.
Durante todo este período, a emoção (motivo) foi o fator desencadeante do movimento para a ação direta sobre os objetos.
Em seguida, a criança passa a agir sobre o meio de forma mais elaborada, mas ainda por meio da experimentação concreta, onde o movimento será o instrumento que irá auxiliar a organização cognitiva (pensamento simbólico) e afetiva (expressão de emoções). As representações mentais dependerão do movimento para que haja internalização. As dramatizações são um exemplo clássico, onde cada movimento da criança será o apoio para a organização interna (cognitiva e afetiva). Nesta fase, apesar de já representar mentalmente, ainda estará ligada à percepção imediata.
Finalizando, a chegada ao pensamento abstrato, que vai concluir um processo de construção do conhecimento (cognitivo), onde podemos dizer que caminha do agir para o abstrair, e vice-versa. Criando conceitos próprios, poderá organizar-se internamente para agir de forma refinada e estruturada.
Mas o que impulsiona a exploração sensório-motora? E os movimentos da criança simbólica? E nossos gestos expressando conceitos e desejos próprios, refletindo nosso caráter?
Tabela de Conteúdos
Emoção!
Motivo maior pelo qual nos movimentamos para falar, escrever, nos expressar por gestos, abraçar, nos mantermos de pé e ir em frente…
No campo que estuda a afetividade, personalidade e relações de objeto, podemos citar dentre as teorias psicodinâmicas, a psicanálise, que através de Freud explicou o processo de estabelecimento das relações de objeto, através da evolução psicossexual do sujeito; e Mahler, que trouxe grande contribuição para a compreensão da importância do movimento na estruturação da afetividade e construção do eu, num processo de separação-individuação.
Desde os primeiros movimentos reflexos do bebê, observa-se um grande “esforço e investimento” na construção do EU. Sua relação com a figura materna, inicialmente ausente” para o bebê, e depois com ela confundido (simbiose), vai detonar o processo de separação, que primeiramente se dará pela percepção concreta e corporal deste objeto. Forma-se o ego corporal, que irá se estabelecer através do contato físico, gestos e expressões de ambos, funcionando como um feedback positivo. Com a conquista de aquisições motoras mais aprimoradas (locomoção), será possível a criança vivenciar situações de afastamento físico. Sua percepção real deste afastamento, passará por uma fase de sentimentos ambivalentes, onde a criança percebe que pode evitar ou solicitar o contato físico com a mãe. Querer separar-se e ao mesmo tempo permanecer com ela confundido. Com a internalização deste objeto de amor, poderá investir na construção do EU, e em suas habilidades pessoais. Esta construção do EU se dará com a compreensão do NÃO-EU. Este processo é construído com o surgimento da crise oposicional. Freud descreveu como um grande passo em busca da autonomia.
A continuidade deste investimento pessoal, pode ser observada no estudo de Freud sobre as fases de desenvolvimento da sexualidade. A criança passa de um papel passivo na relação de objeto (fase oral), experimentando impulsos libidinais e agressivos, para um papel ativo na relação de objeto. O domínio do corpo, e a vivência de sentimentos diversos (prazer, dor, raiva etc.) aparecem, e são objetivados através da aquisição do controle das fezes na Fase Anal. A percepção que possui maior domínio sobre seu corpo, lhe dá segurança para ir em busca de um objeto de identificação. Surge o Complexo de Édipo e sua dissolução, trazendo a organização de sua estrutura psíquica. Ego não mais somente corporal, mas sim internalizado e organizado. O Id e o Superego funcionarão em luta constante entre a razão e emoção. Este processo permitirá o funcionamento do Ego de forma equilibrada na maior parte do tempo. Toda sua energia, que até então estava relacionada com emoções, dará lugar ao investimento no mundo dos objetos, prevalecendo por alguns anos, o período de Latência, onde a aprendizagem formal será melhor aproveitada e ganhará força. Rompendo esta calmaria interna, chega a adolescência e toda sua explosão corporal, emocional e cognitiva; finalmente fechando o ciclo de estruturação interna. A continuidade se dará com o aprimoramento da personalidade, conhecimento e controle corporal.
Wallon trouxe grande contribuição para a compreensão do desenvolvimento infantil, quando descreveu em seus estudos, como a criança manifesta corporalmente (movimento e tônus) os diversos aspectos de sua estrutura psicológica.
Estudou os meios que utiliza para alcançar seus objetivos, como também suas manifestações cognitivas, afetivas e motoras. Enfatiza a influência do organismo em interação com o meio para o desenvolvimento do homem. Considerou o movimento como o primeiro instrumento para esta interação, regido pelas manifestações afetivas de suas emoções primárias. Com isto, o sujeito, ainda antes de alcançar a linguagem e o pensamento simbólico, é capaz de mobilizar o adulto com suas manifestações primárias. Começa então o processo de socialização e significação de seus movimentos. A emoção é o detonador de suas ações.
Com o aparecimento de condutas cognitivas e acesso ao pensamento simbólico, a emoção será o complemento, e ao mesmo tempo o fator de confronto na constituição da pessoa. Ao longo da vida será possível identificar períodos de prevalência de um ou de outro.
Traz como estrutura global a descrição de campos funcionais (movimento; afetividade; inteligência e pessoa) indispensáveis ao desenvolvimento humano. Estes campos atuam integrados, onde o homem será o coordenador deste processo.
Como contribuição à Educação, estudou as conseqüências do medo no processo de aprendizagem da criança. Apresentou como idéia principal, a possibilidade de utilizar a afetividade em detrimento do medo, que deveria ser substituído pela confiança, respeito e vínculo com o educador.
Le Boulch enfatizou que o aspecto psicomotor tem papel de base para o desenvolvimento do sujeito. Ele reforça todas as aquisições da criança, e favorece a tomada de consciência e domínio de seu corpo. Este corpo, que vai expressar sentimentos, pensamentos e ação funcional sobre o meio. Portanto, um olhar psicomotor em ambientes educacionais será indispensável quando tratamos de aprendizagem.
Um corpo preso não aprende, pois só através do movimento que a criança poderá se desenvolver.
Avaliação Pedagógica Interdisciplinar, um enfoque para além da Inteligência
Para compreendermos com mais clareza a importância do enfoque psicomotor no processo de avaliação pedagógica, é importante lembrar, que para que o mesmo ocorra, será indispensável que se ofereça condições básicas. Verificar o nível de desenvolvimento de forma isolada, em nada acrescentaria ao processo de aprendizagem.
A avaliação ou o olhar psicomotor como ferramenta no processo de avaliação e aprendizagem, fará com que o profissional tenha que exercitar sua capacidade perceptiva na detecção de inúmeras diferenças entre as crianças. Desta forma, poderá realizar um trabalho completo e qualitativo, à medida que poderá compreender a criança como ÚNICA, não mais correndo o risco de avaliar para enquadrar. Tentativas de uniformizar seres que são únicos, só serviria para reforçar a prática da exclusão educacional. Portanto, devemos considerar:
- Entender e respeitar o fato de que o processo de aprendizagem só será efetivado se houver integração entre corpo, afetividade e cognição.
- Com o domínio de suas funções, o sujeito poderá apropriar-se da realidade de forma particular. Entenda o sujeito como contextualizado, e portanto, ímpar.
- O desenvolvimento deve ser entendido como um processo particular de transformação em função das freqüentes e contínuas reorganizações que ocorrem por conte de cada uma das interações estabelecidas pelo sujeito.
- Cada um apresenta sua forma particular de processar as informações recebidas, visto que este não é um processo apenas neurológico, mas sofre influência direta das emoções e conceitos cognitivos alcançados.
- Importante o conhecimento e compreensão dos processos neuropsicológicos: processamento perceptivo; processamento psicomotor; atenção; memória; pensamento e linguagem.
- Processamento perceptivo – reconhecimento do meio por uma modalidade sensorial. Possibilidade de construir uma imagem da realidade. A organização cognitiva está dependendo da capacidade perceptiva e modalidade utilizada pelo sujeito.
- Processamento psicomotor – a organização dos movimentos como produtos de aprendizagem anterior em direção à um objetivo.
- Atenção – habilidade e condição para o funcionamento cognitivo do sujeito.
- Memória – possibilita que possamos recordar fatos recentes ou passados. Possibilita a transmissão de conhecimento, conceitos culturais, registros de experiências importantes. Imprescindível para a aprendizagem ocorrer, assim como a atenção.
- Pensamento – condição psicológica para a resolução de problemas utilizando experiências prévias.
- Linguagem – forma de comunicação funcional utilizada pelo homem.
Processamento Psicomotor
O estudo e compreensão do que chamamos processamento psicomotor, vai incluir a análise de três aspectos que se integram para que o mesmo possa acontecer.
- Aspecto Motor
- Aspecto Cognitivo
- Aspecto Afetivo
Consideramos que o processamento psicomotor engloba a organização de movimentos, como resultado de aprendizagens prévias dirigidas à um objetivo. Estas aprendizagens motoras necessitam de intervenção de processos corticais de análise e síntese das informações. Junto a isto, contamos com a inclusão de aspectos visuais, auditivos e táteis.
A informação proprioceptiva facilitará o aparecimento de esquemas de ação funcionais para o movimento. Inclui a automatização.
Aspecto Motor
Compreende funções que englobam o tônus muscular; a eficiência do movimento; a organização e poder de controle e dissociação; equilíbrio e definição de lateralidade.
Todas as aquisições motoras vão permitir movimentos globais (correr, pular etc.), como também as finas, que são indispensáveis para escrever e ler (coordenação óculo-manual). A evolução do tônus está ligada à evolução fisiológica cerebral. Dissociar movimentos irá permitir a independência dos movimentos entre os segmentos corporais. A eficiência de nossa motricidade fina compreenderá inicialmente o desenvolvimento cefalocaudal/próximo-distal. Flexibilidade de controle motor para a realização de movimentos refinados. Equilíbrio dinâmico e estático irá alternar-se em controle do corpo no espaço durante os movimentos, e a coordenação adequada para manter a postura.
Aspecto Cognitivo
Está relacionada ao comando deste corpo. Permitir que a criança realize o movimento para; dominando o espaço, o tempo e as estruturas internas (simbólica).
A noção de espaço inicialmente refere-se à consciência corporal, para depois estabelecer uma relação entre este corpo e o mundo externo. Representação mental deste corpo, e suas partes (esquema corporal). Após a dissociação entre o EU e o meio, começa a construir mentalmente este mundo. Formará então conceitos básicos e indispensáveis para a aprendizagem como: em cima/embaixo; na frente/atrás; longe/perto; direita/esquerda; dentro/fora etc. Após internalizar estes conceitos em relação a si, poderá compreender as relações entre os objetos.
A noção de espaço engloba orientação, estrutura e organização.
- Orientação – possibilita manter a localização dos objetos em relação ao corpo, e vice-versa. Problemas com orientação espacial poderão manifestar-se na escrita (confusão na grafia de letras semelhantes); na matemática (confusão na grafia de números semelhantes). Este tipo de alteração, pode ser encontrada nos quadros de Dislexia.
- Estrutura – refere-se à possibilidade de considerar as relações entre objetos para selecionar um todo.
- Organização – organizar elementos no espaço e tempo. Dificuldades de orientação poderão interferir negativamente no ordenamento das letras, sílabas e palavras; ou no ordenamento dos números. Encontramos conceitos prejudicados como próximo, antes, depois etc.
A noção de tempo é responsável pela ordenação das ações e transformações. A ordenação das ações evoluirá de pequenos eventos do dia, para eventos mais longos. A noção de tempo servirá como alicerce para a construção do pensamento lógico-matemático.
A noção espaço-temporal será a relação que se estabelece dos elementos num espaço e tempo específicos. Será importante na ordenação de letras; números; palavras; fonemas etc. A formação dos conceitos de lateralidade (canhota; destra e ambidestra) e direcionalidade (consciência da lateralidade) também estão diretamente ligados à noção espaço-temporal.
Aspecto Afetivo
Está relacionada aos motivos que impulsionam os movimentos. As manifestações expressivas dos movimentos relacionados às emoções. Tipo de relação que estabelece com cada situação e sua forma corporal de agir (postura; tônus).
Alterações do Desenvolvimento Psicomotor
Uma das manifestações sintomáticas encontradas nas dificuldades de aprendizagem e nos transtornos do desenvolvimento são a alterações psicomotoras, que deverão ser devidamente analisadas durante o processo de avaliação psicopedagógica. A detecção destas alterações irá contribuir para diagnosticar e traçar planos individualizados de ação pedagógica.
Transtornos Psicomotores
Irão se manifestar sob a forma de inquietação corporal, onde a emoção será o aspecto impulsionador que irá perturbar, desorganizar e interferir na performance global do sujeito. Alterações na construção da consciência corporal, funcionamento e funcionalidade.
- Debilidade Motora – pode estar relacionada à execução de movimentos voluntários, que se caracterização pelo gestual e locomoção desarmônica. A sincinesias com movimentos involuntários difusos (sincinesia de imitação ou tônica). De imitação refere-se à movimentação involuntária de grupos musculares ao realizar determinado movimento. As tônicas referem-se a movimentos associados em situações completamente independentes (movimentar a boca enquanto movimenta a mão). A paratonia caracteriza pela impossibilidade de relaxar involuntariamente.
- Dispraxia – caracteriza-se por movimentos desorganizados e inadaptação de gestual à finalidade. As perturbações incluem problemas na organização do esquema corporal e noção espaço-temporal. Dificuldades em realizar práxis em geral, bem como nas dissociações. Dispraxia afeta também a escrita.
- Lateralização – poderá comprometer a construção da imagem corporal. Encontramos a criança ambidestra sem preferência; a criança canhota contrariada ou lateralidade cruzada. Tais fatores poderão interferir na velocidade do movimento, como também sua eficácia na realização. Crianças com este tipo de dificuldade apresentarão problemas com a direção de letras no processo escritor; confusão na leitura da esquerda para a direita; confusões nas somas (como armas os números e dígitos.
- Instabilidade Psicomotora – são encontradas nas crianças que necessitam de movimentação constante, com grande dificuldade em relaxar. Encontramos como manifestações no Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade; Transtornos do Humor na Criança; Transtornos de Aprendizagem Específicos; Transtornos Invasivos do Desenvolvimento e até em Transtornos de Ansiedade.
- Inibição Psicomotora – inibição do movimento em períodos da vida da criança, onde espera-se grande utilização dos gestos e movimentos. Corpo e movimentos são limitados, dificultando a exploração do mundo. Caracteriza-se por um bloqueio tanto afetivo, quanto tônico. Crianças com Transtornos de Ansiedade geralmente apresentam, em algumas de suas classificações específicas, quadro de inibição.
Sintomas comumente encontrados nos Transtornos Psicomotores
- Dificuldades na continuidade de atividades lúdicas.
- Dificuldades em controlar a agitação.
- Atitudes corporais exageradas.
- Explosões emocionais.
- Atividades descoordenadas.
- Dispersão.
- Alterações na percepção.
- Dificuldades nos relacionamentos.
- Alterações no tônus.
- Escrita alterada no movimento e força na grafia.
- Tiques e alterações na respiração.
- Tensão.
- Apatia.
- Expressão facial empobrecida.
- Falta de limites corporais.
- Inibição do comportamento
No decorrer de uma avaliação psicoeducacional, não podemos deixar de considerar a história desta criança, suas interações, seu contexto. Como os que estão a sua volta interferem no seu desenvolvimento. Professores, família, colegas etc.
Muitas vezes os sintomas apresentados não são relativos à Transtornos do Desenvolvimento, mas sim como reações secundárias emocionais.
A abordagem deve sempre priorizar a afetividade e a formação de um vínculo positivo com esta criança. O olhar interdisciplinar vai permitir uma análise detalhada, e assim uma abordagem interventiva eficaz.
Alguns Transtornos do Desenvolvimento que cursam com alterações Psicomotoras
A presença de alterações psicomotoras poderá definir diagnósticos e conduzir o caso de forma adequada, onde os encaminhamentos e intervenções escolares ou clínicas serão direcionadas e estruturadas de maneira individualizada. Dentre os muitos transtornos do desenvolvimento encontrados na Escola, podemos destacar os mais freqüentes. São eles:
- Transtorno de Aprendizagem Específicos
- Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade
- Transtorno do Espectro Autista
- Transtornos de Ansiedade
Transtornos de Aprendizagem Específicos (dislexia, discalculia e disgrafia)
Os Transtornos de Aprendizagem Específicos, alteram de forma significativa a estruturação da leitura, escrita e a capacidade para cálculos.
A British Dyslexia Association, define o transtorno da leitura como: “Uma combinação de capacidades e dificuldades que afetam o processo de aprendizagem em uma ou mais das áreas de leitura, ortografia e escrita. Fraquezas concomitantes podem ser identificadas nas áreas de processamento da velocidade, memória de curto prazo, sequencialização, percepção auditiva e/ou visual, linguagem falada e habilidades motoras. Ela está relacionada ao domínio e uso da linguagem escrita, o que pode incluir notação alfabética, numérica e musical.”
Uma das formas de se identificar sintomas presentes na criança, é a detecção de alterações psicomotoras inseridas nos critérios para este diagnóstico. Um olhar psicomotor irá além, pois poderá relacionar as alterações motoras descritas anteriormente com aspectos cognitivos e afetivos.
Habilidades para a leitura, escrita e cálculos que podem estar alterados:
- Imaturidade fonológica com alterações na articulação.
- Seguir instruções em geral.
- Baixa autoestima; insegurança e timidez.
- Falhas no Esquema Corporal.
- Problemas de lateralidade (ler da direita para a esquerda).
- Alterações viso-motoras.
- Trocas de letras que necessitam de rotação (orientação espacial) (b-d).
- Mudança de foco.
- Lentidão.
- Sequencialização (trocam letras de lugar).
- Alteração da escrita e produções gráficas.
- Dificuldades em perceber de fato variações na direção.
- Dificuldades em dominar corretamente instrumentos utilizados para escrever ou desenhar (falta de aprimoramento na motricidade fina; ajuste tônico inadequado).
- Alteração óculo-manual.
- Reconhecimento do espaço limitado do papel para desenhar, e das linhas para escrever.
- Grafia excessivamente ruim.
- Postura corporal inadequada para a realização de atividades gráficas.
- Direção das letras alterado (subindo, descendo ou variando).
- Falhas nas ligações entre as letras; mutilação.
- Desorganização na disposição de desenhos ou textos.
- Falha na posição de dígitos (lugar e direção).
- Problemas com relações espaçais; distâncias; tamanhos.
Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade
O TDAH é um distúrbio neurocomportamental de grande incidência. Apresenta como principais sintomas a desatenção; agitação; impulsividade; e alterações na capacidade de focalizar, guiar e gerenciar (funções executivas).
Encontramos como sintomatologia comportamental que interferem diretamente, e de forma negativa, a performance da criança:
- Organização de tarefas.
- Seleção de estímulos prioritários.
- Dificuldades em integrar habilidades.
- Administrar problemas; modular emoções; irritabilidade; ansiedade; imaturidade; insegurança.
- Acessar dados da memória de trabalho (curto prazo).
- Monitorar e regular ações (controle inibitório).
- Instabilidade psicomotora caracterizando extrema necessidade em movimentar-se; impossibilidade de relaxar e instabilidade corporal.
- Grafia ruim; traços fortes e trêmulos; lentidão para a escrita; pressão.
- Coordenação motora inadequada (ritmo, alternância).
- Atraso no desenvolvimento da noção de espaço.
- Gestos grosseiros; desajeitamento em atividades em que necessite de destreza motora.
- Consciência corporal distorcida.
- Imagem corporal alterada.
Transtorno do Espectro Autista
O Autismo, em todos os seus níveis, caracteriza-se por significativo prejuízo nas interações sociais recíprocas, nas habilidades de comunicação e comportamentos restritos e repetitivos. Além de todos os sintomas relativos ao transtorno, encontramos alterações psicomotoras importantes. Seu conhecimento irá favorecer a intervenção pedagógica e clínica.
- Coordenação motora pobre.
- Dificuldades em imitações e execução de tarefas motoras.
- Ritmo e destreza alterados.
- Grafia ruim (disgrafia).
- Movimentos amplos desajeitados (correr; pular; dançar; jogos com bola).
- Atividades finas prejudicadas.
- Dificuldades em atividades viso-motoras.
- Problemas de equilíbrio.
- Alteração do tônus (hipotonia).
- Alterações psicomotoras iguais às encontradas no TDAH, pois também apresentam problemas relativos às Funções Executivas.
- A instabilidade psicomotora também é uma característica em comum com o TDAH.
- Postura rígida; andar em bloco ou nas pontas dos pés; problemas em dissociar movimentos.
Transtorno de Ansiedade
Os transtornos de ansiedade, são caracterizados por crises de ansiedade diante de situações problema, e que se tornam patológicas pela intensidade e quantidade, com a presença de sintomatologia clínica e desprovidas de conteúdo intelectual. A sintomatologia clínica se manifesta por alterações importantes no corpo. Portanto, acabam por apresentar atitudes emocionais e posturais inadequadas. A identificação das mesmas irá contribuir para o planejamento de atividades psicomotoras que favorecerão o controle corporal, minimizar o grau de ansiedade e fortalecer a estrutura emocional da criança. As atividades podem ser realizadas em ambiente escolar ou clínico. Alterações psicomotora mais comumente encontradas:
- Inibição do comportamento, caracterizado pela falta ou diminuição do movimento; limitação motora.
- Bloqueio tônico-afetivo.
- Não utilização do corpo para exploração e interação.
- Introversão.
- Medo excessivo (em arriscar-se ou defender-se).
- Insegurança expressa na limitação; expressão do olhar; dependência.
- Irritabilidade em crianças menores.
- Comportamentos de evitação de situações e atividades.
- Não exposição com recusa de atividades em grupo.
- Paralisia e choro freqüentes.
- Alterações nas relações interpessoais (vinculações difusas; rígidas ou empobrecidas).
- Tendência ao isolamento, ser detalhista ou apego a rotinas.
Importante enfatizar que as avaliações do desenvolvimento psicoeducacional devem necessariamente realizar-se de forma global, isto é, incluir aspectos externos ao sujeito (família, nível sociocultural e econômico, maneira de aprender etc.).
Aspectos Psicomotores que devem ser incluídos no planejamento Educacional- Terapêutico
Após avaliação global da criança, é possível direcionar estratégias de intervenção pedagógica, tanto de organização (preventivas), como de reorganização (modificadora). Esta avaliação também irá direcionar a intervenção terapêutica em casos de transtornos em geral.
Pontos que devem ser incluídos na prática educacional:
- Percepção global do corpo (posições e deslocamentos).
- Consciência corporal (espaço gestual).
- Conhecimento do corpo (esquema corporal).
- Controle corporal.
- Orientação no espaço; organização e relações espaciais.
- Organização espaço-temporal.
- Compreensão motora de tempo (ritmo/movimento); sequência temporal (organização do tempo).
- Equilíbrio.
- Relaxamento.
- Dissociação corporal.
- Motricidade fina (destreza).
- Sensibilização; motivação.
- Trocas sociais; atividades grupais; construção de regras e respeito mútuo.
- Valorização das habilidades de cada um em detrimento às dificuldades.
Como vimos ao longo deste capítulo – que apresentou como objetivo principal, enfatizar a importância do olhar psicomotor na atuação psicoeducacional – não é possível realizar uma avaliação da criança, considerando apenas os aspectos emocionais e cognitivos. O corpo através do movimento, expressa nossa organização interna, portanto, a simples avaliação e reorganização afetiva e cognitiva não atenderá completamente nossos objetivos. É necessário também, a organização/reorganização motora, pois esta que irá favorecer a estruturação e reestruturação do sujeito. Esta prática será fundamental, tanto no ambiente escolar, bem como nas intervenções terapêuticas.

O Olhar Psicomotor como norteador na Avaliação Psicopedagógica
O Olhar Psicomotor como norteador na Avaliação Psicopedagógica

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Bibliografia
– Almeida, Geraldo- Teoria e Prática em Psicomotricidade (2008)
– Bosa, Cleonice – Autismo e Educação (2002)
– Carrara, Kester – Introdução à Psicologia da Educação (2006)
– DSM – IV- TR – Manual Diagnóstico dos Transtornos Mentais
– Goldstein, Sam – Hiperatividade (2004)
– La Taille, Oliveira, Dantas – Piaget; Vygotsky e Wallon (1992)
– Mattos, Vera – Perfil Psicomotor (2005)
– Marcelli, Daniel – Infância e Psicopatologia (2009)
– Moore, Susan – Síndrome de Asperger e a Escola Fundamental (2002)
– Piaget, Jean – O nascimento da inteligência na Criança (1987)
– Saltini, Cláudio – Afetividade e Inteligência (2002)
– Weiss, Maria Lúcia – Psicopedagogia Clínica (2007)
Texto publicado no livro “A Infância e a Psicomotricidade – A pedagogia do corpo e do movimento” – ©2016 by Fátima Alves – Wak Editora. Autorização por Fátima Alves – julho 2023.